quarta-feira, 30 de abril de 2008

BABEL E OUTRAS CONFUSÕES

Vasco Graça Moura
escritor


O disposto no Acordo Ortográfico, quanto às grafias facultativas, "reintroduz no sistema ortográfico português a situação babélica a que 1911 veio pôr cobro" (Ivo Castro e Inês Duarte, A Demanda da Ortografia Portuguesa, p. 34).

Escrevem os mesmos autores que, se este liberalismo ortográfico "constituirá um problema para falantes nativos do português, a situação é ainda mais grave para falantes que aprendam o português como língua segunda. E essa é a situação em que muitas crianças e adultos dos novos países de expressão oficial portuguesa aprendem o português".

Por outro lado, explicam que "na variedade europeia do português actua um processo fonológico sensível à posição do acento, que altera o timbre das vogais não acentuadas".

Demonstram que a tendência do a e do e abertos é a de mudarem para fechados e a do e e do o fechados é a de mudarem para muito fechados na derivação: exs. caça/caçada; festa/festejar; cesto/cesteiro; cola/colar; boca/bocarra.

Este processo não actua sobre um conjunto de excepções, entre elas as dos vocábulos que apresentam uma consoante etimológica que nem sempre se pronuncia.

"No caso do português europeu, a presença de uma consoante etimológica constitui, portanto, de um modo geral, uma instrução que indica que se está perante um caso excepcional em que o timbre da vogal não é alterado" (ibid., p. 35).

Isto é, não segue aquela tendência geral. De outro modo, leríamos com e fechado anti-setico, defetivo, dialetal, espetral, ceticismo, impercetível, recetação, recetáculo...

Disto resulta evidente a essencialidade das consoantes "mudas" para o timbre das vogais em Portugal e nos PALOP, mesmo que algumas palavras de uso mais corrente já tenham adquirido uma pronúncia que as dispensaria, uma vez que, não obstante isso poder acontecer nalguns casos, é impossível elaborar uma regra geral que os especifique com segurança.

Tais consoantes são a "forma de indicar a abertura dessas vogais" (C. Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática..., 9.ª ed., p. 74). Ninguém diz, e muito menos os defensores do Acordo, como assegurá-la se não for assim...

Há ainda as vantagens de se manter uma ortografia próxima da matriz românica e de se evitar a profusão das palavras homógrafas, que aumentam as ambiguidades do texto escrito.

O Acordo de 1945 já elimina as consoantes c e p nos casos em que são invariavelmente mudas nas pronúncias portuguesa e brasileira (adjuncto, adstricto, aqueducto, absorpção, esculptor...)

Mas, segundo aí se dispõe, elas conservam-se:

a) quando são invariavelmente proferidas;

b) quando são proferidas só em Portugal ou só no Brasil ou quando oscilam entre a prolação e o emudecimento;

c) após as vogais a, e ou o, quando não seja invariável o seu valor fonético e ocorram a seu favor outras razões, tais a tradição ortográfica, a similaridade do português com as demais línguas românicas, e ainda quando influem no timbre das referidas vogais;

(acepção, adopção, abjecção, acção, arquitectura, circunspecção, contrafacção, projectar, retroactivo...)

d) quando, embora mudos, devam harmonizar-se com formas afins (abjecto/ / abjecção, carácter / caracteres / didáctico / /didactismo, insecto / insecticida...).

Todos estes casos correspondem pois a outras tantas e importantes razões para a manutenção das consoantes referidas.

Aos defensores do Acordo não interessam questões culturais, como a da ligação à matriz românica, nem questões de homogeneidade gráfica entre palavras afins. Colocam-se numa perspectiva diferente. E entendem que, não sendo o c ou o p pronunciados, eles se tornaram sempre dispensáveis.

Isto significa que consideram o timbre das vogais referidas já estabilizado, quando em inúmeros casos não está. E saúdam o caos de Babel como um progresso...

É a altura de recordar a análise da CNALP: "É evidente que, de imediato, e nesta área estrita da grafia consonântica e do apoio que presta à recuperação de um supra-sistema vocálico comum, o português europeu seria de longe o mais sacrificado na coerência fonológica interna, na inter-compreensão e na facilidade de aprendizagem por povos estranhos à comunidade lusofalante" (Boletim da CNALP, 1989, p. 123).

Publicado no DN.

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