domingo, 3 de fevereiro de 2008

UMA DECISÃO POLITICAMENTE INFELIZ

Vasco Graça Moura
escritor


A ministra sai por um jeito feito à demagogia. Corria um abaixo-assinado contra ela e o PM [primeiro-ministro] acabou por se revelar sensível aos protestos de grande parte da subsidiodependência... Isabel Pires de Lima não tinha meios para fazer fosse o que fosse. A decisão de enxotá-la foi politicamente infeliz, uma vez que já não se esperava que executasse o programa do Governo para a Cultura e também não havia grande reacção quanto a isso, salvo o tal abaixo-assinado. Logo, o meio não estava agitado, mas resignado.

A exoneração traduziu uma falta de solidariedade surpreendente. Se Isabel Pires de Lima cometeu vários erros (Teatro D. Maria II, São Carlos, Museu Nacional de Arte Antiga) e tomou decisões polémicas (exposição do Ermitage, colecção Berardo), nesses casos, contou com a cobertura (e até com a presença física) de Sócrates. Mas a dança dos sete véus do populismo colocou Sócrates no papel de Herodes perante Salomé: deu-lhe a cabeça da ministra numa bandeja. Aliás, também Correia de Campos ficou nessa posição manifestamente desconfortável de S. João Baptista...

Ignoro as razões por que José António Pinto Ribeiro foi escolhido. Tenho muita consideração por ele e pelo seu trabalho cívico, mas não faço a mínima ideia das suas aptidões e qualificações específicas para o sector da Cultura. Por muito benefício da dúvida que se lhe conceda, não me parece que possa fazer nada de especialmente diferente. Não vai ter um tostão para funcionar. Quando muito, poderá rever as questões que enumerei acima e tentar bloquear o Acordo Ortográfico.


Publicado no DN.

Sem comentários: